É comum ouvir que mulheres têm VO₂máx menor que homens.
Mas será que isso significa menor capacidade cardiovascular ou muscular?
Um estudo publicado no The Journal of Physiology (DOI: 10.1113/JP289218) investigou exatamente essa questão em atletas altamente treinados. E os resultados são mais interessantes do que parecem à primeira vista.
Primeiro: o que é VO₂máx?
O VO₂máx representa a quantidade máxima de oxigênio que o corpo consegue captar e utilizar durante o exercício intenso.
Ele é um dos principais indicadores de desempenho aeróbio.
Tradicionalmente, mulheres apresentam valores absolutos menores. No entanto, isso pode estar ligado à composição corporal e não necessariamente à eficiência fisiológica.
Por isso, os pesquisadores decidiram analisar os mecanismos por trás dessa diferença.
Quando ajustamos pela massa magra, o cenário muda
Homens, em média, têm maior massa muscular e menor percentual de gordura.
Isso influencia o VO₂máx quando ele é expresso em relação ao peso corporal total.
Contudo, no estudo, os dados foram normalizados pela massa magra.
Depois desse ajuste, o débito cardíaco máximo deixou de apresentar diferença significativa entre os sexos.
Em outras palavras, proporcionalmente à quantidade de músculo, o coração de mulheres altamente treinadas bombeia sangue com eficiência semelhante à dos homens, especialmente quando o treino de endurance é bem estruturado.
O músculo feminino é menos eficiente? Não.
Os pesquisadores também avaliaram o fluxo sanguíneo nas pernas durante exercício máximo.
Após ajustar pela massa muscular da perna, o fluxo foi semelhante entre mulheres e homens.
Além disso, a capacidade de extrair oxigênio também foi praticamente idêntica.
A densidade mitocondrial e capilar no músculo vasto lateral foi equivalente entre os grupos.
Portanto, o músculo feminino altamente treinado tem a mesma capacidade estrutural e funcional de utilizar oxigênio, o que influencia diretamente a recuperação muscular após esforços intensos.
Então, onde está a diferença?
A principal diferença encontrada foi hematológica.
As mulheres apresentaram concentração de hemoglobina aproximadamente 10% menor.
Como a hemoglobina transporta oxigênio no sangue, isso reduz o conteúdo arterial de O₂.
Consequentemente, a oferta total de oxigênio ao corpo também diminui.
Por isso, mesmo após ajuste pela massa magra, o VO₂máx foi cerca de 10 a 15% menor nas mulheres.
O que isso significa na prática?
A menor captação máxima de oxigênio em mulheres altamente treinadas não ocorre por limitação muscular ou cardiovascular proporcional.
Ela está principalmente relacionada à menor capacidade de transporte de oxigênio no sangue.
Isso reforça dois pontos importantes:
Primeiro, a avaliação do status hematológico é essencial, especialmente em atletas mulheres.
Segundo, comparações diretas de VO₂máx entre os sexos precisam considerar composição corporal e concentração de hemoglobina.
Performance é multifatorial
O desempenho não depende apenas do VO₂máx.
Ele envolve eficiência metabólica, estratégia nutricional, tolerância gastrointestinal e capacidade de sustentar altas taxas de oxidação de carboidratos.
Estratégias como o carbo-loading podem otimizar a disponibilidade energética antes de provas longas.
Por isso, entender os determinantes fisiológicos da performance é o primeiro passo.
O segundo é aplicar esse conhecimento na prática, com estratégia e suporte nutricional adequados.