Nos últimos anos, a presença feminina no esporte cresceu de forma expressiva. Seja nas primeiras corridas de rua, no treino funcional ou no alto rendimento, cada vez mais mulheres estão descobrindo a força do próprio corpo e levando a performance a novos níveis.
Com isso, histórias inspiradoras se multiplicam: atletas que treinam antes do trabalho, mulheres que encontram no esporte um estilo de vida, competidoras que transformam disciplina em evolução constante.
Mas, em meio a esse avanço, existe um ponto essencial que muitas vezes passa despercebido: o equilíbrio entre o quanto o corpo gasta e o quanto ele recebe de energia.
O que acontece quando o corpo entra em déficit energético?
Imagine uma atleta que decide evoluir. Ela aumenta o volume de treinos, corre mais quilômetros, intensifica a musculação. Mas, sem perceber, mantém a mesma alimentação de antes.
O resultado? Um déficit energético progressivo.
No início, os sinais são discretos:
cansaço maior que o habitual
recuperação mais lenta
queda leve de rendimento
Com o tempo, porém, o corpo começa a agir de forma estratégica: ele prioriza funções essenciais para a sobrevivência e reduz aquelas que não são consideradas vitais naquele momento.
A Tríade da Mulher Atleta
Foi a partir dessa observação que surgiu o conceito da Tríade da Mulher Atleta, definida como a combinação de três fatores:
baixa disponibilidade energética
disfunção menstrual
redução da densidade mineral óssea
De acordo com o consenso da Female Athlete Triad Coalition, liderado por Catherine M. De Souza, a principal causa dessas alterações é a ingestão energética insuficiente em relação ao gasto com os treinos .
Ou seja: o corpo não tem energia suficiente para sustentar todas as funções fisiológicas — e começa a “desligar” algumas delas.
Estudos da pesquisadora Anne B. Loucks reforçam esse entendimento, mostrando que a baixa disponibilidade energética afeta diretamente a produção hormonal e o ciclo menstrual em mulheres fisicamente ativas .
Além da tríade: o conceito de RED-S
Com o avanço das pesquisas, ficou claro que o impacto desse desequilíbrio ia muito além da tríade.
Foi então que surgiu o conceito de RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport), proposto pelo Comitê Olímpico Internacional.
Segundo o consenso liderado por Margo Mountjoy, o RED-S pode afetar diversos sistemas do organismo, como:
metabolismo
função hormonal
saúde óssea
sistema imunológico
função cardiovascular
Além disso, compromete diretamente o desempenho esportivo .
Outro ponto importante: apesar de inicialmente associado às mulheres, o RED-S também pode ocorrer em homens.
Quem está mais em risco?
O déficit energético nem sempre é intencional. Muitas vezes, ele acontece simplesmente porque o aumento do treino não foi acompanhado por ajustes na alimentação.
Os grupos mais suscetíveis incluem:
atletas de endurance (corrida, triathlon, ciclismo)
esportes com categorias de peso
modalidades que valorizam baixo percentual de gordura
Sinais de alerta
Alguns sinais que merecem atenção:
ausência ou irregularidade menstrual
fadiga persistente
queda de desempenho
maior incidência de lesões
fraturas por estresse
recuperação lenta
Se esses sintomas aparecem, o mais importante não é ignorar — é investigar.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico do RED-S é feito de forma multidisciplinar.
Médicos do esporte avaliam:
histórico clínico
função hormonal
saúde óssea
Nutricionistas esportivos analisam:
ingestão energética
padrão alimentar
relação entre treino, recuperação e nutrição
O tratamento envolve, principalmente, restaurar a disponibilidade energética adequada.
Na prática, isso pode significar:
ajustar a ingestão calórica
reorganizar a estratégia nutricional
adequar o volume de treino
intervenções médicas quando necessário
Dá para reverter?
Sim — e essa é a melhor parte.
Quando identificado precocemente e acompanhado corretamente, o RED-S é tratável e, na maioria dos casos, reversível.
O objetivo não é parar de treinar, mas sim permitir que o atleta continue evoluindo com um corpo saudável e preparado para sustentar a performance.
Um ponto essencial: saúde e performance caminham juntas
Falar sobre esse tema — especialmente no contexto do esporte feminino — é fundamental.
Porque existe um mito silencioso: o de que treinar mais e comer menos leva a melhores resultados.
Na prática, é o oposto.
Um corpo bem nutrido:
treina melhor
recupera melhor
evolui mais
sustenta performance no longo prazo