Corredores, ciclistas e triatletas consomem suplementos em volume e frequência muito acima da média — e os aditivos químicos presentes nesses produtos podem ser o motivo do seu desconforto gastrointestinal em prova.
Você treina 12, 15, 20 horas por semana. Controla a cadência, monitora a frequência cardíaca, periodiza cada bloco de treino com atenção cirúrgica — e ainda assim, na hora H, o intestino trai. Cólicas no km 30, inchaço depois da prova, estômago fechado no meio da pedalada longa. Já parou para pensar que parte do problema pode estar exatamente dentro do gel, do isotônico e do carboidrato que você consome em alto volume, semana após semana?
Para atletas de endurance, a relação com suplementos é muito mais intensa do que para a população em geral. Géis energéticos, bebidas isotônicas, repositores de carboidrato, aminoácidos e proteínas em pó fazem parte da rotina diária — e em provas longas, podem representar centenas de porções por ano. O problema: boa parte desses produtos é carregada de aditivos químicos — corantes, aromas artificiais, adoçantes sintéticos e conservantes — que não oferecem nenhum benefício nutricional e cujo impacto na saúde intestinal começa a ser revelado pela ciência.
Uma revisão de literatura publicada em outubro de 2025 na Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento investigou exatamente esse ponto, reunindo evidências sobre como essas substâncias interagem com a microbiota intestinal — o complexo ecossistema de trilhões de microrganismos que habitam o seu intestino e que, para o atleta de endurance, é muito mais do que um órgão digestivo: é uma engrenagem central do desempenho.
O intestino que você não vê — mas que decide a prova.
No universo endurance, há um ditado bem conhecido: “a prova é vencida ou perdida no intestino.” Isso não é figura de linguagem. O trato gastrointestinal é o principal limitante em provas de longa duração — estudos mostram que entre 30% e 50% dos ultramaratonistas, ironman e ciclistas de longa distância relatam algum desconforto gastrointestinal durante a competição, e esse é um dos principais motivos de abandono.
O intestino abriga entre 38 e 100 trilhões de microrganismos que formam a microbiota intestinal. Esse ecossistema regula processos muito além da digestão: participa da produção de vitaminas, modula o sistema imunológico, influencia o estado de humor via eixo intestino-cérebro e interfere diretamente no metabolismo energético — incluindo a oxidação de carboidratos durante o esforço prolongado.
Para o atleta de endurance, isso é crítico. A microbiota intestinal saudável favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta que se ligam a receptores no tecido muscular, melhorando o metabolismo mitocondrial e a performance aeróbica. Uma pesquisa da Avante Nestlé destacou que animais com microbiota ativa e suplementados com esses ácidos graxos mostraram melhor desempenho em testes de esteira até a exaustão — uma conexão direta entre intestino e capacidade aeróbica.
“Aditivos químicos são pouco metabolizados pelo organismo, e por isso chegam quase intactos ao intestino — onde interagem com a microbiota de um atleta que já está sob estresse fisiológico intenso.”
Quando esse equilíbrio é perturbado — num fenômeno chamado disbiose — as consequências são amplas e especialmente graves para o atleta de endurance: piora na absorção de carboidratos em prova, aumento da permeabilidade intestinal (o chamado leaky gut agravado pelo esforço), resposta inflamatória exacerbada pós-treino, queda imunológica e fadiga que vai além do que o volume de treinamento justifica. E é exatamente aí que entram os aditivos químicos presentes na maioria dos suplementos e géis do mercado.
O que acontece quando você consome esses aditivos em volume de atleta?
Para a população geral, a exposição a aditivos pode ser moderada. Para o atleta de endurance, não: géis a cada 30-45 minutos em treinos longos, isotônico ao longo do dia, suplemento proteico na recuperação. A exposição é constante e o intestino está frequentemente sob estresse fisiológico adicional do próprio esforço. Veja o que acontece nessa combinação:
- O esforço já fragiliza o intestino — os aditivos pioram
Durante exercícios intensos e prolongados, o fluxo sanguíneo é redirecionado para os músculos e o intestino sofre isquemia relativa. Isso já aumenta naturalmente sua permeabilidade. Emulsificantes e adoçantes que chegam nesse momento encontram uma barreira intestinal enfraquecida — e seus efeitos deletérios sobre a camada de muco são potencializados.
- Alteração da microbiota com uso repetido
Os aditivos são pouco metabolizados pelo organismo e chegam ao intestino grosso quase intactos, interagindo diretamente com as bactérias residentes. O uso contínuo ao longo de uma temporada pode reduzir bactérias benéficas como Bifidobacterium e Lactobacillus e favorecer espécies oportunistas — comprometendo progressivamente a saúde intestinal do atleta.
- Piora na absorção de carboidratos durante o esforço
Uma microbiota desequilibrada e uma barreira intestinal comprometida reduzem a eficiência de absorção de carboidratos em prova. Para o atleta de endurance, isso pode significar hipoglicemia precoce, queda de performance nas etapas finais e o temido “muro” — mesmo com a suplementação sendo feita.
- Inflamação sistêmica que atrasa a recuperação
Com a barreira intestinal permeável, toxinas bacterianas penetram na corrente sanguínea e ativam respostas inflamatórias. Isso eleva marcadores inflamatórios que já estão altos pelo próprio volume de treino, atrasando a recuperação muscular, piorando o sono e aumentando o risco de lesões por sobrecarga.
- Impacto na energia e motivação entre treinos
Via eixo intestino-cérebro, a disbiose afeta a produção de serotonina e dopamina — neurotransmissores fundamentais para a motivação no treino prolongado. Fadiga mental entre sessões, baixa tolerância ao esforço e dificuldade de “conectar” com o treino podem ter raiz na saúde intestinal comprometida.
Você periodiza o treino.
Agora é hora de periodizar a fórmula.
O atleta de endurance moderno tem acesso a um volume de dados que gerações anteriores jamais tiveram: potência, VAM, HRV, lactato, VO₂ máx. Mas um dado que ainda é subestimado é a saúde intestinal — e ela começa, em boa parte, pelo que entra no intestino nos treinos do dia a dia e nas horas de prova.
A ciência é cada vez mais clara: não basta calcular gramas de carbo por hora. É preciso saber quais compostos químicos acompanham esses carboidratos — e se eles estão apoiando ou sabotando o ecossistema que fará a diferença nas últimas horas da sua prova mais importante do ano.
Um intestino saudável, alimentado com fórmulas limpas, absorve melhor, inflama menos, recupera mais rápido e aguenta mais. Essa é a variável que a maioria dos atletas ainda não colocou na equação.
Artigo científico de referência
Impacto de aditivos alimentares na microbiota intestinal
Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 10, Ed. 10, Vol. 02, pp. 97–110, Outubro de 2025.
ISSN: 2448-0959 · DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/aditivos-alimentares
Revisão narrativa de literatura com base no PubMed Central e SciELO, analisando 7 estudos selecionados que relacionam aditivos químicos à modulação da microbiota intestinal (2013–2023).