No Mundial de Ironman de 10 de outubro de 2026, Taylor Knibb venceu a prova feminina em 8h36min29s ao passar Solveig Løvseth no último quilômetro; a causa do colapso da norueguesa não foi estabelecida, mas o episódio é um bom ponto de partida para entender os limites fisiológicos do endurance no calor.
Kona como laboratório do endurance
Kona reúne calor, umidade, sol e um esforço que dura de oito a dez horas. Em 2026, a prova feminina mostrou como esse conjunto pode virar o jogo até o fim. Segundo o relato da Slowtwitch, Løvseth desceu a Palani Hill com quase dois minutos de vantagem, mas entrou em colapso na milha final e foi ultrapassada por Knibb, que antes havia vomitado e perdido terreno perto da milha 21. Knibb cruzou a linha em 8h36min29s, de acordo com a Field Level Media. Um ano antes, a própria Knibb e Lucy Charles-Barclay não haviam terminado a prova, como lembra a retrospectiva de 2025 da Slowtwitch.
Em uma prova de oito horas, o rendimento cai por várias razões possíveis e interligadas (calor, balanço de líquidos, oferta de energia, ritmo, tolerância gastrointestinal), e este texto não faz diagnóstico de ninguém. O episódio serve de gancho para o que a literatura já mediu na própria prova em Kona.
O estudo de Olcina e colaboradores (2019) acompanhou 15 triatletas homens bem treinados no Mundial de 2014 com uma cápsula ingerível que mede a temperatura central. Durante a maratona, a WBGT média foi de 24,7 °C (variação de 22,4 a 28,5 °C), valor que os autores situam em zona de risco mais alto segundo o posicionamento do American College of Sports Medicine (ACSM) sobre doença térmica por esforço.
A temperatura central subiu de 36,6 °C antes da largada para 38,55 °C por volta do km 16 da corrida e seguia em 38,65 °C uma hora após a chegada. Esses atletas haviam chegado ao Havaí dez dias antes para se aclimatar. A amostra é pequena e de outra edição, então serve como retrato do tipo de estresse térmico que a prova impõe, não como explicação do que ocorreu em 2026.
O que o calor faz com o organismo
Durante o exercício, o corpo transforma boa parte da energia produzida em calor. Além disso, em esforços intensos, essa produção pode chegar a 15 a 20 vezes os valores de repouso, conforme o posicionamento ACSM, 2007. Para não superaquecer, o organismo precisa dissipar esse calor, e é aí que o ambiente entra na conta.

Sudorese e circulação
A principal via de resfriamento durante o esforço é a evaporação do suor, que depende de o ar absorver a umidade da pele. Quando o ar já está úmido, a evaporação diminui e a mesma quantidade de suor resfria menos; um estudo de 2025 do grupo de Julien Périard tem como título justamente a relação entre umidade elevada, perda evaporativa de calor e desempenho em ritmo autorregulado. Ao mesmo tempo, o sangue precisa irrigar a pele para levar calor à superfície e os músculos para sustentar o ritmo. A revisão de Sawka, Rasmussen e Nybo descreve esse “custo termorregulatório” como gerador de desafios cardiovasculares, aumento da ventilação e alterações do metabolismo muscular, todos candidatos a explicar a perda de capacidade de sustentar a potência.
Temperatura central e fadiga
No calor, a fadiga em provas longas não parece ser só muscular. A revisão de Nybo (2008) aponta que a queda de resistência envolve o sistema nervoso central, possivelmente por sinais inibitórios do hipotálamo associados ao aumento da temperatura cerebral, e lembra que fatores psicológicos também contam.
Na introdução do estudo de Kona, Olcina e colaboradores resumem essa linha de evidência: temperaturas centrais acima de cerca de 38 °C foram associadas à fadiga central, e a corrida em clima quente exige ritmos menores do que o atleta sustentaria em clima ameno. A temperatura central acompanha sobretudo a taxa metabólica, e não só o termômetro: quem corre mais forte produz mais calor, mesmo em condições iguais.
Na prática, isso ajuda a ler episódios como o de 2026 sem simplificação. Calor e umidade reduzem a margem entre o ritmo escolhido e o que o corpo consegue sustentar, e o que se vê de fora (uma desaceleração súbita, vômito, perda de coordenação) pode ter mais de uma origem. Um relato de caso em triatleta de Ironman, por exemplo, descreveu fadiga hipertérmica antes de uma queda rápida do sódio sérico, o que mostra que temperatura e equilíbrio de líquidos e eletrólitos interagem.
Aclimatação e hidratação: não basta beber água no dia da prova
A aclimatação é uma das principais estratégias para enfrentar o calor. Nesse sentido, consenso de Racinais e colaboradores (2015) afirma que a intervenção mais importante para reduzir o estresse fisiológico e otimizar o desempenho no calor é a aclimatização, com exposições repetidas ao exercício no calor ao longo de uma a duas semanas. Treinar em clima ameno gera aclimatização apenas parcial e não substitui dias seguidos de treino no calor. Os ganhos vêm de maior sudorese e fluxo sanguíneo na pele, expansão do volume plasmático, maior estabilidade cardiovascular e melhor equilíbrio de líquidos e eletrólitos.
A revisão de Périard e colaboradores (2015) acrescenta que a magnitude das adaptações depende de intensidade, duração, frequência e número de exposições, além de o calor ser seco ou úmido. Uma meta-análise atualizada reuniu 135 artigos e encontrou melhora de desempenho no calor após a adaptação (g = 0,7), com menor temperatura central de repouso e frequência cardíaca e maior taxa de suor, mas efeitos menores que os relatados antes e com muita heterogeneidade entre estudos. A adaptação também se perde: uma revisão sistemática sugere que cerca de 1 dia de aclimatização é perdido a cada 2 dias sem exposição, o que pesa no planejamento de quem treina no calor e viaja dias antes da prova.

Hidratação é individual
O posicionamento do ACSM (Sawka e colaboradores, 2007) orienta começar a atividade euidratado, o que pode exigir beber nas horas anteriores, e evitar perda de peso corporal superior a 2% por déficit de água durante o exercício. Como suor e perda de eletrólitos variam bastante entre pessoas, o documento recomenda programas personalizados, e a taxa de suor pode ser estimada pesando-se o atleta antes e depois do treino.
Beber mais, porém, não é sempre melhor. O consenso internacional sobre hiponatremia associada ao exercício (2015)conclui que a estratégia individual mais segura é beber líquidos palatáveis quando houver sede, e alerta para os riscos do consumo forçado além da sede.
| Documento | Mensagem central para hidratação |
| ACSM, 2007 | Começar euidratado; evitar perda acima de 2% do peso; plano personalizado com base na taxa de suor |
| Consenso de hiponatremia, 2015 | Beber quando houver sede; evitar excesso de líquido, que pode diluir o sódio do sangue |
| Consenso de Racinais, 2015 | Iniciar euidratado e minimizar a desidratação durante o exercício, aliado à aclimatização |
As três orientações se complementam: o plano é montado antes, medido no treino e executado sem forçar nem ignorar a sede.
O que se mediu em Kona
Em um estudo do Mundial de 2011 (28,9 °C e 71% de umidade relativa), 33 triatletas de elite tiveram taxa de suor média de 1,6 L/h e perda de massa corporal de 2,3% após a prova; os autores estimaram perdas totais de líquido entre 15,5 L (mulheres) e 18 L (homens), indicando que os atletas minimizaram bem a desidratação. No estudo de 2014, Olcina e colaboradores observaram queda de 4,9% no índice de massa corporal, mas não mediram marcadores de hidratação, e apontam que uma perda maior de massa não necessariamente favorece a termorregulação.
Da ciência à prática: líquidos, eletrólitos, carboidratos e resfriamento
Com o que a literatura mostra, um plano para prova longa no calor pode ser organizado em quatro frentes. Ele deve ser testado nos treinos longos, nunca estreado no dia da prova (o próprio guia de Kona do The Triathlete recomenda não experimentar o manejo do calor pela primeira vez lá).
1. Chegar preparado
Planeje de 1 a 2 semanas de exposição ao calor antes da prova, em treinos de verdade e não só em dias de sauna, e considere que a adaptação regride com a interrupção. Chegue euidratado, com alimentação e líquidos adequados nas horas anteriores, como orienta o ACSM.
2. Líquidos: medir em vez de chutar
Pese-se antes e depois de treinos longos no calor para estimar a sua taxa de suor, como sugere o ACSM, e use essa referência para montar um plano individual. A meta é limitar a perda a menos de 2% do peso por déficit de água, sem beber em excesso. A orientação de beber conforme a sede, defendida pelo consenso sobre hiponatremia, protege contra o outro extremo, o excesso de líquido.
3. Carboidratos e eletrólitos
Segundo as recomendações de Asker Jeukendrup, em exercícios de 1 a 2 horas cerca de 30 g/h costumam bastar; com o aumento da duração a ingestão sobe até 60 g/h e, além de 2,5 horas, pode chegar a 120 g/h. Acima de 60 g/h convém combinar carboidratos que usam transportadores intestinais diferentes (por exemplo, glicose ou maltodextrina com frutose, em geral na proporção de 2:1). O mesmo autor observa que, acima de 90 g/h, mais pessoas relatam intolerância, e uma revisão sobre a proporção glicose:frutose lembra que o calor aumenta os sintomas gastrointestinais, razão a mais para treinar o intestino com antecedência.
O ACSM também reconhece que, durante o exercício, bebidas com eletrólitos e carboidratos podem trazer benefícios em relação à água pura em determinadas situações. O sódio é o eletrólito central nessa conversa, e sua necessidade varia muito de pessoa para pessoa, pois o suor tem composição diferente em cada atleta.
É nesse ponto que produtos esportivos entram como ferramenta, e não como atalho. Géis de carboidrato, como os da Xtratus, e bebidas com eletrólitos facilitam alcançar a dose planejada de carboidrato por hora e repor sódio de forma previsível, mas o que importa é conferir no rótulo a quantidade de carboidrato, o tipo de açúcar, o teor de sódio e a presença de cafeína, ajustando tudo à sua taxa de suor e à sua tolerância, definidas nos treinos.
O que levar de Kona 2026
O desfecho da prova lembra que, no endurance, a diferença muitas vezes aparece nos últimos quilômetros, e que ninguém controla o clima do dia. O que se controla é a preparação: aclimatar, medir o próprio suor, treinar o plano de líquidos, carboidratos e sódio, e ter uma estratégia de resfriamento. Se você correr no calor, converse com seu médico ou nutricionista esportivo para adaptar essas orientações ao seu caso, sobretudo se tiver condições de saúde que afetem o equilíbrio de líquidos e sódio.
Fontes
Prova de 2026
- Taylor Knibb Exorcises the Kona Demons, Wins 2026 IRONMAN World Championship (Slowtwitch)
- American Taylor Knibb wins women’s Ironman World Championship (Field Level Media)
- Dramatic collapse decides women’s Hawaiian Ironman (Canberra Times)
- A Year in Triathlon: The Biggest Losses of 2025 (Slowtwitch)
- IRONMAN Kona 2026: Complete Course Guide and Race Day Tips (The Triathlete)
Posicionamentos e consensos
- Sawka MN et al. ACSM Position Stand: Exercise and Fluid Replacement. Med Sci Sports Exerc, 2007.
- Armstrong LE et al. ACSM Position Stand: Exertional Heat Illness during Training and Competition. Med Sci Sports Exerc, 2007.
- Racinais S et al. Consensus recommendations on training and competing in the heat. Br J Sports Med, 2015.
- Hew-Butler T et al. Statement of the Third International Exercise-Associated Hyponatremia Consensus Development Conference. Clin J Sport Med, 2015.
Artigos e revisões
- Olcina G et al. Core Temperature Response During the Marathon Portion of the Ironman World Championship (Kona-Hawaii). Front Physiol, 2019.
- Examination of performance and hydration responses in elite triathletes during the Ironman World Championship(Kona, 2011).
- Nybo L. Hyperthermia and fatigue. J Appl Physiol, 2008.
- Sawka MN, Rasmussen P, Nybo L. Performance in the heat: physiological factors of importance for hyperthermia-induced fatigue. Compr Physiol.
- Périard JD et al. Adaptations and mechanisms of human heat acclimation. Scand J Med Sci Sports, 2015.
- Effects of heat adaptation on physiology, perception, and exercise performance in the heat: an updated meta-analysis. 2024.
- Daanen HAM, Racinais S, Périard JD. Heat acclimation decay and re-induction. Sports Med, 2018.
- Choo HC et al. Ergogenic effects of precooling with cold water immersion and ice ingestion: a meta-analysis. Eur J Sport Sci, 2018.
- Optimizing ice slurry ingestion for endurance performance in the heat: a meta-analysis. J Anthropol Sport Phys Educ, 2019.
- Jeukendrup A. Recommendations for carb intake during exercise.
- Glucose:fructose ratio in carbohydrate sports beverages